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A boa idéia e o panetone

            Certa vez, na faculdade, ouvi de um professor a seguinte frase: - Quando a idéia é boa, ela se basta. Prestem atenção nos comerciais da Bom Bril. Um sujeito com cara de bobo, num estúdio, sobre um balcão, anunciando esponjas de aço, saponáceos e similares. É um comercial que está há anos no ar. Por quê? Porque a idéia é boa, e por ser boa, não precisa de enfeites, de super produção. Em compensação, desconfiem de comerciais super produzidos. Geralmente, escondem uma idéia fraca. A idéia boa se basta.
            O garoto-propaganda da Bom Bril até hoje dá o ar de sua graça nos intervalos comerciais. É a boa idéia longeva e criativa.
            Ao ouvir o professor, lembrei-me da Doutrina Espírita, que não tem sacerdotes, imagens, rituais, paramentos... É a simplicidade de uma boa idéia.
            Muitas religiões, sem demérito para qualquer uma delas, diga-se, têm proibições, rituais de iniciação, sacramentos... O Espiritismo não precisa disso por trazer à tona todas as verdades que existem entre o céu e a terra de forma lúcida e democrática, acessível a todos.
            Enquanto várias religiões possuem templos suntuosos, castas sacerdotais, mistérios, dogmas e tudo mais, a Doutrina Consoladora só precisa de um lugar para chamar de centro e, é claro, boa vontade, garra, fé, esperança, caridade, braços abertos e estudo. É o suficiente para que o centro espírita se transforme num ponto de luz na escuridão, como o são todos os templos de religiões em que o amor ao próximo se faz presente.
            Mesmo assim, embora de forma pontual, ainda encontrarmos pessoas que fazem Espiritismo á moda da casa, ou seja, levam para o movimento espírita comportamentos ritualísticos de outras religiões. Por isso, ainda nos deparamos com centros espíritas onde há um chefe, que manda e desmanda e a quem todos devem obediência e satisfação. Em outros, quem manda é o guia. Se as obras de Allan Kardec dizem algo e o guia, outro, o que manda é a vontade do guia. E há outros que gostam de erguer um busto em homenagem a Kardec ou a Chico Xavier; lugares onde os aplicadores de passe se vestem de branco; onde há sessões de cromoterapia; cristais etc. Já vi até locais que se denominam centro espírita e misturam à Doutrina rituais de batismo, luta de capoeira...
            Isso me faz lembrar um artigo que o jornalista Marcelo Coelho escreveu para o caderno “Ilustrada”, do jornal “Folha de São Paulo”. Intitulado “O declínio moral do panetone”, o artigo fala que o panetone, antes um bolo natalino recheado com frutas secas, começou a ter a versão chocotone para conquistar a criançada. Desse momento em diante, a coisa desandou. Agora, temos panetone recheado com coco, goiabada, doce de leite, creme trufado... Na opinião do Marcelo Coelho, tais variações são outros bolos, mas não são panetones. Panetone é o tradicional, que todos conhecem bem. Com tantas versões, diz ele, descaracterizou-se a mesa do Natal, que perdeu seu aroma característico e passou a ter cheiro principalmente de chocolate. 
            Ouso dizer que a Doutrina Espírita é o nosso panetone tradicional, sem enfeites, coberturas, recheios... É a boa idéia que se basta. Não precisamos cobri-la, enfeitá-la ou recheá-la para chamar atenção ou atrair público, apenas de amor ao próximo, justiça, caridade e tudo aquilo que Kardec preconizou. Este é o Espiritismo.
            Vivemos em um mundo onde as pessoas gostam de enfeitar o que não precisa de enfeite, pôr molho no que já está temperado. Há algum tempo, estava numa casa de lanches comendo um brioche e tomando um suco de laranja quando o cliente ao lado pediu um pedaço de empadão, que já se basta de tão gorduroso que é. Só que, não satisfeito com o que um pedaço de empadão tem para dar, o sujeito besuntou-o com ketchup e maionese. Para que tanto exagero? Para que macacar o que já está bom por ser do jeito que é?
            Portanto, mais uma vez, para ficar bem claro, a Doutrina Espírita não precisa de paramentos. Ela é a boa idéia, o Consolador Prometido, dispensa condimentos ou confeitos. Não alteremos seu aspecto, conteúdo ou sabor pelo fato de as pessoas gostarem de enfeitar o que não precisa de enfeites. Simples assim.

Marcelo Teixeira

 

 

 
 
 
       
     
UNIÃO MUNICIPAL ESPÍRITA DE PETRÓPOLIS - UMEP
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