Um cavalinho me contou...
Era um domingo. Dia bonito de sol. Levantei e rapidamente me passou pela mente um projeto para o meu dia. Mas nossa vida toma rumos às vezes bem diferentes daqueles que planejamos. O telefone tocou. Era um vizinho narrando ter visto um cavalo deitado na beira da estrada do condomínio, parecendo morrer. Ele já havia ligado para alguns órgãos da prefeitura, sem solução. Nos mobilizamos, então, para tentar ajudar aquele desconhecido animal.
Lá chegando, nos deparamos com algumas pessoas penalizadas, palpitando sobre a triste sorte daquele animal que, provavelmente, servira a seu dono durante toda uma vida e agora na velhice era abandonado à própria sorte.
Frutas, verduras, ração e muita água foram oferecidas ao cavalinho, que nada rejeitou, demonstrando muita fome e sede.
A cada instante mais carros paravam para saber do estado de saúde do enfraquecido cavalinho. Comecei então a observar que muitas daquelas pessoas que ali estavam eram meus conhecidos de vista, de só cruzar pelo condomínio. O que primeiro me chamou a atenção foi um motoqueiro, que sempre vejo em alta velocidade, e a partir desse comportamento, fiz vários julgamentos a seu respeito (nada positivos). Minha surpresa foi vê-lo ali, com aquele jeito de playboy de zona sul, abaixado, acariciando o cavalinho, com lágrimas nos olhos, dizendo que boa parte da madrugada havia passado ao seu lado e que se ele ficasse bom o adotaria e até construiria um pasto para ele em seu sítio.
Em seguida, uma senhora, sempre muito bem penteada, com seu caseiro, emendou, dizendo que se precisasse de ajuda podia contar com seu funcionário, pois ele entendia de cavalos e por ordem dela aplicara remédio para carrapatos e também nas feridas causadas pelas moscas, que não paravam de rondar o pobre cavalinho.
Um senhor, que sempre vejo carrancudo, cortava pedaços de cana e dava na boca do animal, enquanto falava da irresponsabilidade e da covardia de pessoas que deixam chegar a este ponto um ser vivo. Assim passamos boa parte da manhã e da tarde, nos revezando para não deixá-lo só, até que o veterinário chegasse.
Notei, então, que aquelas pessoas que se dispuseram a socorrer o cavalo eram as de que eu fazia mau juízo. Percebi que algumas, moradoras do Rio que passavam só o fim de semana, não se incomodaram em “perder” seu domingo para tentar salvar o bichinho.
Aquele senhor carrancudo com seu tênis de marca catava folhagens na estrada para sinalizar a existência do cavalinho, preocupado com a sua segurança.
A mulher de penteado sofisticado mostrava os tornozelos mordidos de carrapatos quando ajudava seu caseiro a cuidar do cavalo.
Ele era um simples animal de rua. Velho, feio e doente. Mas de alguma forma tocou o coração de cada um de nós, que mal nos cumprimentávamos e que agora estávamos unidos por uma mesma causa. De repente não importava mais quem era o quê. Nosso único objetivo era salvar uma vida. E fizemos o possível, o que estava ao nosso alcance. Infelizmente o diagnóstico do veterinário não foi o esperado. Teria que ser sacrificado. Frustrados, choramos e retornamos aos nossos lares com uma frase do médico, que nos trouxe algum consolo: “Pelo menos vocês o ajudaram a morrer com mais dignidade”.
Mas aquele domingo teve um valor maior para mim, porque aquele cavalinho, embora quietinho na sua dor, me contou que Deus, ao criar-nos, coloca em cada ser uma sementinha de amor que germina sempre que nos deixamos tocar pela solidariedade e pelo amor ao próximo, sem preconceitos ou discriminação.
Que Deus ilumine os caminhos daquele cavalinho!
Sheila Coutinho e Helen Hartung - 08/09/2005 |