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ANENCÉFALOS - DO ZIGOTO AO VELHO

 

........Freqüentemente, retornam a público debates que tratam da legalização do aborto de anencéfalo, tema que traz à tona questões mais graves do que a simples opção de dar ou não continuidade ao processo de gravidez de um feto teoricamente imperfeito.

........Através da mediunidade de Chico Xavier, relata o Espírito André Luiz, na obra “Missionários da Luz”, que o espírito reencarnante é ligado ao embrião poucos minutos após a fecundação do óvulo pelo espermatozóide. Do zigoto ao velho, o processo da vida passa a estar sob as determinantes desse espírito, combinando suas características espirituais oriundas de sua bagagem evolutiva às características genéticas disponíveis pelos agentes materiais. Ou seja, fornecidas pela família que o recebe, notadamente pai e mãe. O continuum da vida se estabelece a partir daí e todo e qualquer rompimento acarretará, perante as leis de Deus, suas conseqüências, seja para o espírito reencarnante, seja para aqueles que direta ou indiretamente estejam envolvidos no processo. Entenda-se aí os pais, os familiares e o próprio médico, que muitas vezes tem papel fundamental na decisão tomada pela mãe de continuar ou não a gravidez.

........Mas por que continuar a gestação, questionam todos, já que o organismo em formação não vingará por questões tecnicamente comprovadas? Por que não poupar a mãe da gestação e mesmo do desenvolvimento de vínculos afetivos com o ser que cresce dentro de si e que estará, dentro das concepções técnico-sociais, inabilitado para a vida? Não seria mais simples interromper o processo em seu início? Essas questões certamente não encontram respostas no campo teórico do cotidiano popular, no qual se instalam. Daí surge sempre a dúvida: o que fazer? Esses argumentos servem, por outro lado, de embasamento aos abortistas , que fortalecem suas convicções em desalinho para justificarem o crime da interrupção da vida.

........Contudo, tecnicamente está comprovado que a não-formação do encéfalo não impede a formação do tronco encefálico, responsável pelas funções motoras do organismo, como a respiração, os batimentos cardíacos, entre outras. Daí termos, tecnicamente também, o desenvolvimento do feto e da vida, mesmo sem a formação do encéfalo.

........Já no campo espiritual, pois somos espíritos, o desdobramento dessa questão ganha profundidade e uma dimensão de responsabilidade que transcende as questões materiais inerentes à gravidez. Não podemos esquecer do Autor da vida, ou como nos orienta a Doutrina Espírita, de Deus, inteligência suprema, causa primária de todas as coisas” (“O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec, FEB). Sabendo que Deus é justo, é imperativo que se entenda o porquê da vida e a questão dos anencéfalos não foge à regra. O espírito reencarnante, ligado a esse embrião em trabalho de formação anormal, necessita da oportunidade desse processo para reequilíbrio de sua condição espiritual e de seu corpo perespirítico em desalinho, como conseqüência de experiências encarnatórias anteriores, graves, onde esse mesmo espírito, ultrajando as Leis Divinas, atentou contra si, muitas vezes pelo caminho do suicídio, e necessitará, ainda, de várias experiências como esta para reorganizar seu modelador energético ou corpo espiritual. Nestes casos, uma gestação que do ponto de vista material é entendida como frustrada serve, na verdade, como filtro, como fôrma em processo de forja, para reequilibrar aquele que mau uso fez da dádiva da vida. E a brevidade de sua vida pós-parto será compatível com a carga de energia vital de que virá dotado, dentro do planejamento reencarnatório pré-estabelecido e necessário para sua recuperação como espírito imortal.

........Assim, por meio de inúmeras tentativas, vai o espírito resgatando os fragmentos que impôs a si próprio pelo mau uso de seu livre-arbítrio para, futuramente, estar habilitado a formar, em combinação com as variáveis genéticas dos pais, novo corpo saudável para uma nova e completa experiência evolutiva. Cumpre-se aí a máxima Divina, conforme ensinado pelo Cristo, de que “a cada um será dado conforme suas obras” . O corpo espiritual, modelador energético do corpo físico, encontrando-se danificado, portanto, não poderia contribuir para a formação de um corpo físico saudável. Precisa, contudo, de várias oportunidades para sua remodelagem, como o artesão, que após várias tentativas, define a forma final de sua arte. Ainda lembrando o espírito André Luiz, “ o buril fere a pedra, faz-se a pedra obra-prima ”.

........Essas questões não se limitam, contudo, ao aspecto relacionado exclusivamente ao espírito reencarnante. Temos, como agente ativo e não meramente passivo, a família envolvida nessa situação, com relevante destaque para a mãe, sendo ela o veículo da vida. Não há efeito sem causa e o envolvimento dos pais nesse processo, e notadamente o da mãe, tem suas origens em experiências remotas de sua escalada evolutiva. Haverá também, em muitos casos, estreito vínculo entre ela e o espírito que por seu meio resgata suas faltas através desse processo. É importante, e mesmo indispensável, que ela receba todo o apoio da família e mesmo de especialistas no campo da assistência psicológica e da espiritual, quando necessário.

........O médico tem, nesse caso, papel relevante. Normalmente, atua como conselheiro no campo técnico, opinando se a gravidez deve ou não ter prosseguimento. Muitas vezes assume papel decisivo, trazendo a si as responsabilidades oriundas pelo estado emotivo e psicológico da paciente, quando, em vez de assumir uma posição de guardião da vida, assume a de interruptor da mesma. O aborto, nesse caso, recai para a mãe como um sentimento de culpa tão ou mais grave do que a de levar a efeito uma gravidez que antecipadamente se sabe que não logrará um nascituro saudável, senão para atender aos propósitos superiores de auxiliar a um espírito em processo de reorganização evolutiva. Os traumas de um aborto premeditado para a mãe podem ser muito mais sérios que a continuidade da gravidez. A partir dessa compreensão, tem-se não mais uma mera gravidez de um anencéfalo, mas a de uma gravidez missão, de amparo, resgate e misericórdia, dentro das grandiosas Leis de Deus. A interrupção da gestação só se justifica, dentro da orientação técnica de um médico especialista, se põe em risco a vida da mãe.

........A mãe, pela combinação do amparo psicológico especializado e pela assistência espiritual orientada para o entendimento das razões e conseqüências de sua participação no auxílio ao próximo, como missão, como prova e mesmo expiação, será mais feliz, pois certamente estará atendida pela espiritualidade superior, pois a nenhum deixa Deus ao desamparo, especialmente quando cumpre com suas responsabilidades perante as determinantes superiores da vida. A mulher-mãe possui a missão superior de ser agente, veículo da vida, seja ela tida como normal ou quando instrumento de Deus para que se cumpram seus desígnios superiores que, no caso em questão, são os de auxiliar na retomada do caminho da perfeição aqueles irmãos que se equivocaram no uso de seu livre-arbítrio.

........Outra questão que também poderia ser aqui abordada trata do compromisso prévio que essa mãe possa ter assumido, antes de reencarnar, com esse espírito em processo de doloroso resgate. Quem pode afirmar que esse espírito, o reencarnante, não seja um ser muito amado dessa mãe, e que necessita de seu concurso para sua recuperação, por Misericórdia Divina?

........Como ficará essa mãe, sob a ótica psicológica e espiritual quando, em oportunidade futura, neste ou no plano espiritual, descobrir que falhou no compromisso que assumiu? E ao saber do atraso no processo de recuperação desse ente amado por sua responsabilidade? Será, certamente, mais doloroso do que dar continuidade ao processo de gravidez do anencéfalo!

........Como nos lembra Francisco Cândido Xavier, o aborto, se adotado como princípio legal de uma nação, formalizado em seus códigos de lei, acarretará graves conseqüências coletivas e individuais, de doloroso resgate para todos.

........Mais uma vez não deve o homem relegar ao plano técnico ou mesmo científico as questões que transcendem a percepção material da vida, buscando em sua natureza espiritual e em sua imortalidade, as explicações que o auxiliem na construção de um futuro mais feliz para si e para aqueles a quem ama. A Doutrina Espírita nos traz a explicação de tais situações e o Cristo, o caminho a ser seguido para que o futuro nos reserve dias mais felizes, na mais perfeita compreensão de que “... a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória!

 

Rogério Müller

 
 
 
 
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