A PASSAGEM DO BASTÃO
A experiência tem nos mostrado que a sucessão de pessoas nos cargos de direção, principalmente de diretoria, não é algo assim tão fácil de ser entendido na realidade de alguns centros espíritas.
Há companheiros que acreditam que a felicidade no mundo espiritual está condicionada ao exercício de funções na diretoria do centro espírita. Exercício que, nesta concepção, quanto mais longo, maior quota de paz e alegria trará para o tarefeiro após a desencarnação.
Existem outros que não conseguem se ver atuando no centro, sem que possuam um cargo, tanto que após uma eleição em que não são reconduzidos a ele, logo se distanciam, afirmando terem cumprido o papel que lhes estava destinado, não restando mais nada a ser feito.
Esse tipo de postura, muitas das vezes, é endossado por companheiros invigilantes que, desejando externar simpatia, se declaram surpresos e indignados com o processo sucessório.
Não podemos nos esquecer dos que afirmam querer “passar o bastão”, mas não encontram pessoas dispostas a abraçar a tarefa. Sem contar os que reiteram, constantemente, que é muito difícil ser dirigente espírita, pois são muitos problemas a serem resolvidos e, é preciso “muito tempo” disponível para a se dedicar à tarefa.
E aqui nos lembramos de Divaldo Pereira Franco 1, quando este afirma que “cada líder tem os colaboradores que produz. Se ele é um trabalhador que consegue motivar os companheiros, surgem, naturalmente, os colaboradores; se ele é alguém que manda os outros fazerem, fica sempre sozinho.” E complementa dizendo que nesses casos, “(...) não se quer servir, e sim aparecer” 2.
Há também os que se acreditam revestidos de uma “missão” e em hipótese alguma pensam em deixar o cargo ou preparar alguém para exercê-lo. Quando o fazem, deixam claro para o substituto que ele somente assumirá a função após a desencarnação dele, o dirigente.
Em alguns casos (e aqui não podemos generalizar), a função exercida obedece a um mecanismo psicológico de compensação, ou seja, a ausência de conquista de espaços na vida pessoal e profissional leva a criatura a transferir para o centro espírita o seu processo de auto afirmação. Até aí nenhum problema, desde que isso ocorra com equilíbrio, e os espaços sejam compartilhados de forma fraterna e democrática.
Sabemos que, muitas vezes, o modismo de estar sempre mudando pode comprometer todo um processo de crescimento do centro, pois há situações em que o melhor é que seja mantido o grupo que se encontra à frente das tarefas.
Em outras ocasiões, tendo a possibilidade de se fazer a necessária renovação, nos omitimos ou ficamos com receio de ferir suscetibilidades. O que nos leva a colaborar diretamente para a manutenção de coisas com as quais não concordamos e que, no entendimento de vários trabalhadores, vão contra o que o Espiritismo propõe.
Se a filosofia de trabalho estabelecida for do conhecimento de todos e for também aquela construída e legitimada com a aquiescência da maioria, independentemente de qualquer revezamento que exista, ela será mantida, repensada e aperfeiçoada pelos novos dirigentes, que não serão outros, se não trabalhadores que já atuam há algum tempo no centro espírita.
Quando um grupo é mantido, há situações em que aqueles que se apresentaram como candidatos e não foram eleitos se melindram e se afastam.
Não é unicamente “o que fazemos” no campo do bem que nos credencia à felicidade agora ou depois, mas também “o como fazemos”. Logo, não serão os cargos, mas a forma e o sentimento como nos desincumbimos dos encargos.
À semelhança de uma corrida de revezamento, ora estamos com o bastão, ora estamos sem ele. Mas de uma forma ou de outra estamos juntos na mesma equipe, com tarefas diferentes, mas empenhados na busca dos mesmos objetivos.
Se o nosso exercício democrático é falho nos centros espíritas, onde temos tudo para fazê-lo pleno, como desejar que ele seja uma realidade nas demais instituições sociais?
Sem a preparação de novos trabalhadores e continuadores, o centro espírita corre o risco de fechar as as portas e deixar de cumprir a sua função social.
Os espíritos superiores disseram a Allan Kardec, na questão 895, que o sinal mais característico da imperfeição é o interesse pessoal, que o apego às coisas materiais constitui sinal notório de inferioridade e que o desinteresse demonstra que o espírito encara de um ponto mais elevado o futuro.
Se não nos sentimos apegados aos bens do mundo, devemos analisar o grau de apego a nós mesmos, às idéias pessoais das quais não abrimos mão e que temos todo direito de defendê-las, só não temos o direito de impô-las. E o mesmo vale para a relação que estabelecemos com os cargos e encargos que assumimos no centro espírita.
Só nos resta intensificar os nossos estudos doutrinários, lendo inclusive, obras específicas sobre a gestão do centro espírita, evitando disputas internas, “silenciando melindres, apagando ressentimentos, estimulando o bem e esquecendo omissões no terreno das exigências individuais” 3.
Cezar Said
psicólogo, pedagogo e escritor e expositor espírita
artigo publicado em 13 de março de 2006 |
________________________________________________________________________
1. FRANCO, Divaldo Pereira. Diálogo com dirigentes e trabalhadores espíritas. São Paulo: USE, 1995, p. 37.
2. Idem, ibidem, p. 40.
3. XAVIER, Francisco Cândido e Vieira, Waldo. Estude e Viva. Pelos Espíritos André Luiz e Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1996, 8ª edição, p. 207.
|