A interminável busca pelo sobrenatural
Conta-nos o evangelista Marcos (Mar. 9:2-29) que Jesus subiu ao alto de um monte e se transfigurou, quando então apareceram Elias e Moisés conversando com Ele. Após a transfiguração, recomendou Jesus que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que Ele ressuscitasse dos mortos. Então Jesus desceu do monte, acompanhado dos apóstolos, que perguntavam entre si o que seria “ressuscitar dos mortos”.
Nessa oportunidade, Jesus viu uma multidão que cercava um jovem, e logo uma pessoa aproximou-se e disse: “ Mestre, trouxe-te o meu filho, que tem um espírito imundo ”. Em seguida, narrou que o espírito o agitava violentamente, espumando, machucando-o, jogando-o no fogo e na água, e que pedira aos discípulos de Jesus para que o expulsassem, mas eles não tinham conseguido.
Jesus lamenta a falta de fé dos discípulos e pergunta ao pai do menino se ele tinha fé, pois tudo é possível ao que crê. Então, lemos a seguinte e curiosa exclamação daquele homem que implorava por socorro: “ Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade ”.
É o que continuamos a ver em pleno século 21, quando expressiva maioria dos homens procura a cura de seus males por intermédio dos Espíritos, ou simplesmente busca ansiosamente o local onde se afirma que fenômenos ditos espirituais ou sobrenaturais estejam ocorrendo. É impressionante que onde ocorrem fenômenos, logo o espaço se torna pequeno, pois expressivo número de curiosos se aproxima, ajuntando-se àqueles que, imitando Tomé, querem ver de perto, pois “ precisam ver para crer ”.
É óbvio que isso não ocorre somente na seara espírita, mas em todos os locais onde curas espirituais são relatadas ou onde fenômenos ditos sobrenaturais ocorrem habitualmente, ou não. A freqüência é extraordinária, o silêncio respeitoso se implanta e a expectativa da cura se concretizar torna-se palpável no ambiente. Como exemplo, podemos citar as peregrinações feitas aos locais “ sagrados ”, onde teriam ocorrido aparições diversas.
Todavia, os Espíritos nos dizem que os fenômenos existem apenas para chamar a atenção, daí terem sido tão intensos na época de Jesus, e também quando do surgimento da Doutrina Espírita, quando extraordinários fenômenos físicos ocorriam na Europa, nos Estados Unidos, no Brasil e em outras partes do mundo. Não deveríamos dar tanto valor a tais ocorrências, pois o importante é mesmo o estudo, já que a Doutrina Espírita se caracteriza por atender à razão, quando declara que “ fé inabalável só é aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade ”.
Quando nos colocamos na interminável procura de fenômenos que alicercem a nossa fé, estamos de fato inseguros quanto à verdade que dizemos seguir, vacilantes à procura de “ provas ” da continuação da vida após a morte.
O que realmente pode trazer confiança, segurança, certeza da nossa sobrevivência é o estudo metódico, sistemático e, preferencialmente, dirigido. Quando nossas dúvidas são esclarecidas, quando paramos para raciocinar, verificamos que nossas dúvidas vão desaparecendo e a certeza da sobrevivência se instala definitivamente. É o que ocorre quando o iniciante toma conhecimento da reencarnação. Acha de inopino absurda a idéia. Mas depois de um estudo perseverante, feito no silêncio e no recolhimento, e satisfeita a razão e a lógica, quando todas as suas questões são respondidas, instala-se uma verdadeira e inabalável certeza, que nos traz profunda paz interior. Na Introdução de “O Livro dos Espíritos”, no item 16, Allan Kardec enfatiza que “ o que caracteriza um estudo sério é a continuidade que se lhe dá ”.
Se você está, conscientemente ou não, em sua busca solitária de provas pela sobrevivência, se deseja uma “ ajuda na sua incredulidade ”, esteja ciente de que somente pelo estudo sistemático ela se implantará em sua alma.
Carlos da Gama Campos
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