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Política e Espiritismo


Com a chegada do período eleitoral, retornam os questionamentos sobre o posicionamento da Doutrina Espírita ou do Movimento Espírita acerca da política. Trata-se, em verdade, de um tema controverso para muitos dirigentes e mesmo para a maioria dos adeptos do Espiritismo. A política ainda é vista, pela maioria, como um sistema destinado a atender às preocupações sociais e mais imediatas do homem, e nossa preocupação, como espíritas, se situa no campo do espírito imortal, da transcendentalidade da vida. E assim, de certa forma, vamos nos distanciando do cenário que nos cerca, dentro de um posicionamento apolítico.

Ocorre que, de forma direta ou indireta, estamos todos inseridos neste contexto e nos parece ser recomendável uma reflexão, menos pragmática e talvez um pouco mais reflexiva, a respeito da política.

Observando a história, nos damos conta de que há aproximadamente 15 mil anos, vários grupos humanos haviam se espalhado por quase todas as regiões da Terra, com exceção das áreas polares gélidas e inóspitas e de ilhas remotas, como a Nova Zelândia. Esses grupos humanos viviam basicamente da caça e do recolhimento de alimentos. Com utensílios muito primitivos, viviam de maneira muito próxima a seus antepassados da Idade da Pedra. Passados alguns milênios, o quadro se reverte e dá início a uma nova era de desenvolvimento para a humanidade, intitulada Nova Idade da Pedra, ou, como é melhor conhecida, de Revolução Neolítica, sem precedentes na História do homem. Trata-se, na verdade, da agricultura. Abrindo apenas um parênteses nesse relato, lembramos que os espíritos vindos de Capela, em conformidade ao que esclarece o Espírito Emmanuel em “A Caminho da Luz”, pela psicografia de Chico Xavier, já estavam na Terra a concorrerem para o desenvolvimento dos povos primitivos e da própria fixação dos caracteres raciais.

Seguindo, quando o homem aprendeu a cultivar a terra e a domesticar os animais, um novo processo de desenvolvimento social se construiu sobre a face do planeta. Apresenta-se, a partir daí, um novo surto populacional, o surgimento de grandes comunidades que posteriormente deram origem às primeiras cidades-estados e esboçam-se novos sistemas de ordem social, se é que assim podemos designar os primeiros sistemas que posteriormente constituíram as modernas formas de governo. Também, por outro lado, de pequenas escaramuças entre grupos rivais, surgem as primeiras guerras de grande proporção. O homem primitivo não só aprende a tirar da terra sua sobrevivência, como também a dominar um pouco a natureza, convertendo cursos d'água, construindo diques, habitações individuais e coletivas mais seguras e organizadas, sistemas de drenagem... Enfim, um novo tempo para um novo homem que povoa a Terra.

Não é difícil de se compreender que a organização social está associada ao desenvolvimento da humanidade ao longo do tempo.

Ainda resgatando um pouco da História, encontramos em Aristóteles (384-322 A.C.) o primeiro legado ou compreensão do que seja essa ciência que, se por um lado a tantos empolga, por outro tem custado muito à humanidade, pela complexidade de sua estrutura e pela cobiça de poder e posses que vem despertando em muitos de seus realizadores.

O tratado de Aristóteles, composto de 8 livros, foi escrito com base no estudo de 158 Estados bárbaros e gregos. A teoria daí construída, a partir de uma análise crítica das idéias dos sofistas, dos cínicos e de Platão, de quem foi discípulo, dá conta de três principais formas de governo que se fundamentam na razão, como sejam: a monarquia, a aristocracia e a democracia. Ainda, segundo Aristóteles, essas três formas de governo podem ser boas, desde que consideradas as necessidades, a época e as condições do momento. Mas também podem ser prejudiciais, quando se degeneram, dando origem à tirania, à oligarquia e à demagogia. Aristóteles definiu o homem como um “animal político”, ou seja, que necessita viver em sociedade. Para ele, a política é inseparável da ética.

A partir dessa reflexão conceitual, damos curso à compreensão de que o homem jamais esteve desassociado da prática política, qualquer que seja ela. Está em sua natureza de homem social, ou homem político na abordagem Aristotélica, organizar-se politicamente.

Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, capítulo XVII, temos em “Instruções dos Espíritos”, intitulado “O homem no mundo”, sábias reflexões sobre a vida social:

“... não julgueis, todavia, que exortando-vos incessantemente à prece e à evocação mental, pretendamos vivais uma vida mística, que vos conserve fora das leis da sociedade onde estais condenados a viver. Não; vivei com os homens da vossa época, como devem viver os homens. Sacrificai às necessidades, mesmo às frivolidades do dia, mas sacrificai com um sentimento de pureza que as possa santificar. Sois chamados a estar em contato com espíritos de naturezas diferentes, de caracteres opostos: não choqueis a nenhum daqueles com quem estiverdes. Sede joviais, sede ditosos, mas seja a vossa jovialidade a que provém de uma consciência limpa, seja a vossa ventura a do herdeiro do Céu que conta os dias que faltam para entrar na posse da sua herança ...”.

Um Espírito Protetor (Bordéus, 1863)

Portanto, não nos cabe o isolamento, ainda que preventivo. A política por si só, não pode ser compreendida como um sistema impróprio ao homem social. Como apresentado anteriormente, está em sua natureza organizar-se politicamente.

Dr. Bezerra de Menezes, considerado o médico dos pobres, o Kardec Brasileiro, passou pela vida pública por duas vezes em sua última encarnação:

“Eleito vereador municipal pelo Partido Liberal, em 1861, teve sua eleição impugnada pelo chefe do Partido Conservador, Haddock Lobo, sob a alegação de ser médico militar. Objetivando servir o seu partido, que necessitava dele a fim de obter maioria da Câmara, resolveu afastar-se do Exército (onde ocupava o posto de cirurgião-tenente). Em 1867 foi eleito Deputado Geral, tendo ainda figurado em lista tríplice para uma cadeira no Senado.

Quando político, levantou-se contra ele, a exemplo do que ocorrem com todos os políticos honestos, uma torrente de iniqüidades e injúrias que cobriu o seu nome de impropérios. Entretanto, a prova da pureza da sua alma deu-se quando, abandonando a vida pública, foi viver para os pobres, repartindo com os necessitados o pouco que possuía.

... Retornando à política, foi eleito vereador em 1876, exercendo o mandato até 1880. Foi, ainda, presidente da Câmara e Deputado Geral pela Província do Rio de Janeiro, no ano de 1880.”

Esse texto foi construído por Paulo Alves Godoy em 1982, após o prefácio da obra “Os Carneiros de Panúrgio” escrita por Bezerra em 1886, quando ainda encarnado, sobre a temática da família. Temos, assim, um interessante relato sobre um espírito que é referência de bondade e bom-senso, sobre sua vida na seara política.

Mas, a fim de reforçar a tese de que esse tema é bem controverso, chamamos a atenção para um fato que cresce a cada eleição: a formação das bancadas religiosas. Muitas vêm ganhando espaço e ação no meio político, inserindo seus dogmas religiosos no corpo de leis e normas que se criam para gerir o estado público.

Se por um lado esse é um fato concreto, por outro temos também as orientações vindas do Plano Superior sobre o posicionamento recomendável para o espírita e para a Casa Espírita. Vemos, em “Conduta Espírita” – obra psicografada por Chico Xavier e Waldo Vieira, do Espírito André Luiz (Cap. 10, pg. 46), as seguintes observações:

“ (...) Em nenhuma oportunidade, transformar a tribuna espírita em palanque de propaganda política nem mesmo com sutilezas comovedoras em nome da caridade. O despistamento favorece a dominação do mal. (...)

Repelir acordos políticos que, com o empenho da consciência individual, pretextem defender os princípios doutrinários ou aliciar prestígio social para a Doutrina, em troca de votos ou solidariedade a partidos e candidatos. O Espiritismo não pactua com interesses puramente terrenos. (...)

Não comerciar com o voto dos companheiros de ideal, sobre quem a sua palavra ou cooperação possam exercer alguma influência. A fé nunca será produto para mercado humano. (...)

Impedir palestras e discussões de ordem política nas sedes das instituições doutrinárias, não olvidando que o serviço de evangelização é tarefa essencial. A rigor, não há representantes oficiais do Espiritismo em setor algum da política humana”.

Vemos, assim, de forma expressa e objetiva, recomendações para que nossas ações, enquanto espíritas atuantes no Movimento Espírita, ou principalmente, quando à frente de Instituições Espíritas e constituídos de responsabilidades formais, que não nos engajemos em campanhas políticas e preservemos nossas Instituições dessa movimentação político-partidária.

Mas tal fato não nos isenta, enquanto cidadãos, de acompanharmos a candidatura e o desempenho do candidato ou político espírita, que poderá, por estar inserido no contexto da vida pública, influir, com base na Doutrina Espírita, na construção e preservação de preceitos sociais alicerçados na Terceira Revelação. Isso não significa, contudo, subsidiar o engajamento do candidato, menos ainda de seu partido, através de seu eleitor espírita, à Casa Espírita ou mesmo ao Movimento Espírita. Da mesma forma que somos simpáticos, por exemplo, a um time de futebol, não significa, com isso, que devemos levar essa predileção para dentro da Instituição Espírita.

Mas a questão não se encerra por aí. É bem verdade que o político possui compromissos, a que não pode se furtar, com as ideologias partidárias e com suas bases de apoio eleitoral, construídas ao longo das campanhas e da estruturação dos planos de governo. Essas, muitas vezes, se convertem no atendimento a interesses de ordem pessoal e de alguns grupos que detêm o poder, especialmente o econômico. Não será exagero lembrar das advertências do Professor Herculano Pires, em “O Centro Espírita” - Cap. VIII, pg. 63 “As questões políticas” (os grifos são nossos):

“Não existe igreja espírita, mas existe o Centro. Quando os dirigentes deste não estão devidamente esclarecidos sobre este assunto, podem transformar o Centro num comitê eleitoral. Isto é o que se deve impedir. A Política é a arte da administração pública, da direção dos negócios públicos. O espírita, como cidadão, pode e deve participar dela, de acordo com os ditames da sua consciência, mas não tem o direito de se apresentar ao eleitorado como candidato espírita, porque o Espiritismo não é, não tem e não pode ter uma posição política. (...) A política é um campo terreno de disputas, intrigas, conflitos de toda ordem. Comprometer o Espiritismo nessa área de discórdias, em que fervem as paixões partidárias e ideológicas, é levar para a área espírita as divergências mundanas, como vemos na história do passado e agora mesmo, na história contemporânea, as inquietações e os desajustes do mundo. A função política do Espiritismo existe, mas noutro sentido. Não lhe cabe nenhum lugar nas disputas de cargos políticos, mas lhe cabe a formação espiritual dos homens para que exerçam, como cidadãos, influência benéfica na solução dos problemas políticos, através do bom-senso e da retidão da consciência, quando levado pelas circunstâncias, chamado ou convocado para funções administrativas em áreas do Estado .

Temos aí, nestas colocações, uma forma do espírita influir nos destinos sociais, quando envolvido nos destinos políticos da cidade, do estado ou mesmo da própria nação. Se por um lado temos a missão de trabalhar nosso interior, o “eu”, na construção do homem novo, esse mesmo homem, que é um homem social, ou político, pela observação de Aristóteles, também pode, quando chamado aos deveres públicos, exemplificar e vivenciar essa doutrina de amor e consolação que nos orienta sobre os rumos a seguir a caminho da perfeição.

Deixa-se, assim, ao leitor, a tarefa de concluir sobre qual postura adotar quanto às suas posições e preferências político-partidárias, destacando a independência da Doutrina Espírita como sendo o Evangelho redivivo do Cristo, reforçando seu caráter libertador que nada impõe ou cerceia, lembrando, contudo, o Apóstolo Paulo em sua 1 ª Epístola aos Coríntios, quando afirma que, “... tudo me é lícito, mas nem tudo me convém.”

 

Rogério Müller

 
 
 
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