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Não esmoreça!


Os dias atuais têm nos reservado difíceis desafios, num quadro às vezes não muito animador. É a violência a colimar em toda parte; a incerteza de dias melhores a figurar no horizonte de muitas pessoas; o surgimento de novas doenças; as guerras e morticínios que irrompem em todos os cantos da Terra e também a solidão do homem moderno que, mesmo inserido no cotidiano populoso das grandes cidades, sente-se cada vez mais isolado e vazio. Aliado a isso, temos a pressão social que nos induz a seguirmos os paradigmas convencionais do consumismo, das aparências, das frivolidades do dia-a-dia que quase nunca preenchem nossas necessidades nem satisfazem nossas expectativas de vida.

Nossas Instituições Espíritas registram um aumento de freqüência nunca antes visto, e pode-se observar nos olhares atentos dessa nova platéia a busca por novos caminhos que ajudem a solucionar velhos problemas. As atividades de Atendimento Fraterno multiplicam seus esforços no consolo aos corações aflitos e a problemática existencial se reveste de muitas facetas. As Casas Espíritas convertem-se, cada vez mais, em pronto-socorro espiritual, multiplicando esforços, a fim de melhor auxiliar os que as buscam, seja por que razão for.

Os desafios do mundo moderno requerem força de espírito, como se diria no linguajar popular, e uma significativa dose de coragem para serem superados sem se deixar levar pelo desânimo e pelo pessimismo. Mas não basta o curativo, há que se tratar a causa, que reside no ser imortal.

Ocorre assim, pois tais situações são originárias do próprio homem, que constrói no hoje sua vida futura e colhe agora aquilo que semeou no passado. Somos a conseqüência de nós mesmos, artífices da própria condição existencial, seja no hoje, seja no amanhã. Ao enfrentarmos nossos insucessos com coragem e força interior, não só venceremos os desafios do presente, como, conseqüentemente, iniciamos a pavimentação de nosso futuro. O amanhã dependerá do que fizermos agora, como o hoje é o resultado do ontem. Essa simplicidade de abordagem só se obtém à luz da Doutrina Espírita, que serve de base para fortalecimento de nossa condição existencial.

Ao conhecê-la, o homem moderno descortina os horizontes que o remetem à sua herança divina: a eternidade! Interpretando a natureza do Criador, “... inteligência suprema, causa primária de todas as coisas” (1) , despimos nossa compreensão do supremo poder da vestidura carnal. Passamos a entender o Criador em essência e não mais na forma antropomórfica e limitada de um velho senhor de barbas brancas . Somos seus filhos, “criados à sua imagem e semelhança” (2) , em espírito e em verdade e não em forma física, cor ou sexo. Ora, somos espíritos e é aí que reside nossa imagem e semelhança . Compreendemos, então, que o Criador, em sua imutabilidade, sabedoria e bondade, criou leis universais que governam o universo e suas criaturas, pois fazemos parte dessa humanidade sideral. Estamos sujeitos a essas leis justas e não ao casuísmo do cotidiano. Recordamos, então, o Cristo, quando diz que “a cada um será dado segundo suas obras” (3) , na mais simples compreensão de que somos os arquitetos do nosso futuro, herdeiros de nossas escolhas, não havendo preferências, e sim, méritos na colheita diária de nossas obras.

Observamos, pelo entendimento da pluralidade das existências ou da reencarnação que fomos criados simples e ignorantes por esse Deus justo e bom, cabendo a cada um os esforços pessoais e intransferíveis na construção dos valores eternos que se acumulam com o passar do tempo. A cada oportunidade reencarnatória, nos situamos diante de desafios novos (provas) e resgates (expiações) necessários para a conquista de novas oportunidade evolutivas e para a purificação de nossos equívocos pretéritos. E a bondade do Criador, que a ninguém desampara, nos possibilita o pagamento de nossas dívidas com a conta do amor. É neste entendimento que temos registrado em Pedro (4) a afirmação de que “... o amor cobre a multidão de pecados”. Nossos equívocos passados podem ser resgatados pela dor ou pelo amor. A escolha é nossa. Se optarmos pelo amor, não faltará oportunidades de fazer o bem ao próximo em inúmeras ações diárias ou em apoio a tantas iniciativas ora em vigor, no amparo aos menos favorecidos. E sem a desculpa de falta de tempo. O que fazer com nosso tempo é questão de opção pessoal.

Somos espíritos, únicos, ímpares, a caminho da perfeição. Se o presente nos reserva dissabores, sejamos humildes em reconhecer nossas necessidades momentâneas e partamos em busca da paz que a compreensão da vida, à luz da Doutrina Espírita, nos traz. E essa paz passa por esforços pessoais, no campo da reforma íntima e pelo trabalho em prol do bem. Há muito o que fazer em matéria de nós mesmos. Cada um sabe exatamente do que ainda carece no campo dos esforços intransferíveis a executar no labor interior e reconhece as limitações dos méritos que, muitas vezes, na hora do desespero, ou mesmo da vaidade acerbada, acredita possuir. Nos cercam as oportunidades para o exercício diário das mudanças necessárias. É a família difícil a reclamar nossa paciência e compreensão; é o filho distante que busca por ajuda e orientação; é o doente abandonado no leito do hospital aguardando por uma visita confortadora e sincera; é o amigo em desespero carecendo de uma palavra de apoio; é a criança faminta aguardando um pouco das sobras de nossas mesas. E por maior que seja nossa dor ou necessidade, há sempre algo a fazer, no campo das nossas possibilidades em prol daqueles que muito precisam. É a terapia do amor a serviço do próximo e de nossa melhora e fortalecimento.

Fazer da experiência material um cenário de aprendizado, uma escola viva, é melhor que tê-la na conta de um vasto hospital. Estejamos atentos para não deixar passar a oportunidade reencarnatória no campo das conquistas pessoais, do espírito eterno, e tenhamos coragem de enfrentar o dia-a-dia com determinação, certos de que a vitória do porvir começa nas horas do presente.

Rogério Müller

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•  KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 58ª ed. São Paulo: LAKE – 1998. Capítulo I, Primeiro Livro, pág. 55.
•  Gênesis 1:26
•  Lucas XII:47-48
•  IPe 4:8

 
 
 
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