O que é mediunidade?
Muito se fala e muito se escreve sobre mediunidade. E muito do que é escrito e dito mais desinforma do que informa a respeito do assunto. Afinal, o que é mediunidade? Um dom que beneficia privilegiados? Algo ligado às artes do demônio, como alguns grupos ainda supõem?
Em “O Livro dos Médiuns”, segunda obra da Codificação, Allan Kardec diz, no início do capítulo 14: “Todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos é, por esse fato, médium. Essa faculdade é inerente ao homem; não constitui, portanto, um privilégio exclusivo. Por isso mesmo, raras são as pessoas que dela não possuam rudimentos. Pode, pois, dizer-se que todos são, mais ou menos, médiuns.”
Isso quer dizer, em claro e bom português (se bem que Kardec é sempre claríssimo) que todos nós, seres humanos, somos médiuns. Sejamos espíritas, católicos, budistas, protestantes ou ateus; acreditemos ou não “nessas coisas”, para utilizar um jargão bem popular, todos sofremos, em maior ou menor grau, a influência dos Espíritos. E quem são os Espíritos? Somos nós, habitantes do planeta Terra, quando estivermos do lado de lá.
O Espiritismo, convém ressaltar, não inventou a mediunidade. Ela existe desde os primórdios da civilização. Na certa, se consultarmos, por exemplo, a Bíblia, não encontraremos as palavras médium ou mediunidade. Mas encontraremos o termo profeta. Em movimentos religiosos como a Renovação Carismática, da Igreja Católica, é comum ouvir termos como “Fulano tem o dom da profecia”. Quantos de nós rezamos para que o anjo da guarda ilumine nossa consciência, a fim de tomarmos a decisão mais acertada? Tudo isso é mediunidade. Ou seja, a capacidade que possuímos de servirmos de “ponte” entre o plano espiritual e o plano material.
Algumas pessoas possuem a mediunidade à flor da pele. É o caso de Antônio de Pádua (o Santo Antônio dos católicos) que tinha uma mediunidade extraordinária. Chico Xavier, o notável médium espírita de Uberaba, por meio de uma mediunidade bem conduzida (a mediunidade com Jesus) deixou-nos mais de 400 livros psicografados, além de um grande exemplo de vida pautada no amor ao próximo.
É interessante utilizar “médium espírita” quando nos referimos a Chico Xavier. O que estamos querendo dizer com isso? Resposta: nem todo médium é espírita e nem todo espírita possui a mediunidade aflorada. Eu, que escrevo este artigo, tenho mais de 20 anos de Doutrina Espírita e movimento espírita. No entanto, nunca vi, ouvi ou incorporei um Espírito. Minha sensibilidade mediúnica, portanto, não é lá essas coisas. Em contrapartida, em várias cidades do nosso país, é comum encontrarmos gente distribuindo panfletos com os seguintes dizeres: “Fulana de tal, médium espírita. Venha solucionar seus problemas através do verdadeiro Espiritismo. Trazemos a pessoa amada de volta em três dias, arranjamos emprego, resolvemos problemas familiares... Ligue xxxxxx e marque uma consulta.” Pode ser até que a pessoa seja médium, mas está longe de ser espírita, pois mediunidade é um dom que jamais deve ser comercializado (“Dai gratuitamente o que gratuitamente recebestes” – Jesus, Evangelho de Mateus, cap. X, v. 8). Quem vem com tarefa na área mediúnica vem para colocar a mediunidade a serviço do próximo, como fizeram Antônio de Pádua e Chico Xavier e como muitos fazem de forma anônima. Portanto, caro leitor, fique longe desse “verdadeiro Espiritismo”, que de verdadeiro não tem nada.
É por causa desse comércio esdrúxulo que Moisés proibiu a comunicação com os mortos. As pessoas, já naquela época, consultavam os, digamos, adivinhos, para tratar de questões comezinhas (casamento, dinheiro...) e mediunidade não é para isso (vide Antigo Testamento, Levítico, capítulo 19, versículos 26 a 31; e capítulo 20, versículo 27). Portanto, o Espiritismo assina embaixo da proibição de Moisés, pois mediunidade não existe para fins comerciais. Mediunidade é coisa santa, que existe para consolar e auxiliar o próximo.
Marcelo Teixeira
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