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Espiritismo: uma Doutrina Cristã

 

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida.
Ninguém virá ao Pai senão por mim!”
(João 14:6)


..........Não é com pouca freqüência que observamos, em várias matérias produzidas pela imprensa, a apresentação da Doutrina Espírita como não Cristã , o que é lamentável. Provavelmente isso se dê em função de seu caráter científico e filosófico, como também em decorrência da falta de dados corretos ou de fontes primárias confiáveis por parte daqueles que preparam e transmitem a informação. E nem sempre o jornalista responsável pela matéria é espírita.

..........As pessoas, em geral, tomam conhecimento do Espiritismo ao lerem uma matéria em jornal, revista, ao verem uma reportagem na televisão, ao assistirem a uma novela ou a um filme, hoje tão em voga, ou mesmo numa visita a uma Instituição Espírita. Ocorre que, em muitos casos, esse contato se restringe a um rápido episódio. Não é possível a ninguém conhecer uma doutrina da importância da Espírita em apenas um contato. Não se apreende seu conteúdo assistindo-se apenas uma ou algumas poucas reuniões doutrinárias. É assim que se constrói o “meio conhecimento”, dando curso ao que normalmente ouvimos de muitas pessoas, como: “Sei mais ou menos o que é Espiritismo”. O problema, neste caso, não é o pouco conhecimento adquirido, mas o conhecimento incorreto. Daí termos informações erradas como a que afirma ser ela uma doutrina não Cristã.

..........Muitos também acreditam ser uma doutrina de Allan Kardec, chamando-a de Kardecismo. Não é de Kardec, e sim, dos Espíritos Superiores que, sob a coordenação do Cristo, a revelaram à humanidade. É de todos nós. Kardec foi o missionário responsável por organizá-la, por codificar as informações recebidas pelo Plano Espiritual Superior em várias partes do mundo. O mestre lionês, ao cunhar a palavra Espiritismo, distinguiu-a do espiritualismo, que trata da existência do espírito e de sua sobrevivência, fato aceito por quase todas as denominações religiosas e também pelo Espiritismo. Mas Espiritismo é um corpo Doutrinário, encaminhado ao mundo material pelos Espíritos a serviço do Cristo.

..........Ouvimos, certa vez, a seguinte pergunta: por que Allan Kardec, ao compilar a terceira obra da revelação espírita - “ O Evangelho Segundo o Espiritismo” - não abordou todo o conteúdo do Novo Testamento?

..........Começaremos aqui, aproveitando a questão acima, alguns esclarecimentos acerca da base Cristã do Espiritismo. A obra citada já revela o compromisso de Kardec e da própria Doutrina com o Cristo, e é ele mesmo quem responde a essa questão oportuna, como segue:


“ ... Podem dividir-se em cinco partes as matérias contidas nos Evangelhos: os atos comuns da vida do Cristo; os milagres; as predições; as palavras que foram tomadas pela Igreja para fundamento de seus dogmas; e o ensino moral. As quatro primeiras têm sido objeto de controvérsias; a última, porém, conservou-se constantemente inatacável. Diante desse código divino, a própria incredulidade se curva. É terreno onde todos os cultos podem.reunir-se, estandarte sob o qual podem todos colocar-se, quaisquer que.sejam suas crenças, porquanto jamais ele constituiu matéria das disputas.religiosas, que sempre e por toda a parte se originaram das questões.dogmáticas.”

“... É finalmente e acima de tudo, o roteiro infalível para a felicidade vindoura, o levantamento de uma ponta do véu que nos oculta a vida futura. Essa parte é a que será objeto exclusivo desta obra.”

Fonte: Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo,
Rio de Janeiro: FEB, 2006. Introdução, item I, p.25.


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Kardec demonstra, assim, ser o Cristo o referencial e modelo da humanidade, o verdadeiro caminho para a construção da felicidade.

..........A Doutrina Espírita tem em Deus o pai criador e em Cristo nosso irmão maior, aquele que já alcançou a plenitude de sua evolução, sendo o governador espiritual da Terra. Não se trata, para o Espiritismo, de mais um profeta ou do mais importante deles. É bem mais que isto. Jesus já era um espírito superior, tendo percorrido todo o processo evolutivo a caminho da perfeição, muito antes da formação da Terra que, estima-se, tenha aproximadamente 4.5 bilhões de anos. E não é um ser privilegiado, tendo sido criado já perfeito por Deus. O privilégio que possui de ser um espírito puro é resultado de esforços pessoais e méritos que alcançou pelo bom uso de seu livre-arbítrio em sua trajetória evolutiva.

..........Deus não teria sido justo se o tivesse criado superior, diferente de nós. Por isso, Jesus é modelo da humanidade por mérito, e não por preferência do Criador.

..........Assim, não é difícil de concluir que Jesus alcançou seu patamar evolutivo em outros mundos, tendo encarnado por aqui apenas uma vez para dar o testemunho de seu evangelho de amor como preposto de Deus na condução desse grande rebanho do qual fazemos parte, sendo a Terra a escola abençoada e momentaneamente indispensável a nosso aprendizado.

..........Esclarece-nos o espírito Emmanuel, através da psicografia de Chico Xavier, na obra “A Caminho da Luz”, que Jesus e seus prepostos coordenaram todo o processo de formação da Terra, a partir de seu desprendimento do Sol há bilhões de anos. Presidiu a organização do Planeta até que se consolidassem as bases necessárias ao surgimento da vida sobre a face da Terra, como princípio necessário e preparatório à chegada, tempos mais tarde, de espíritos em suas primeiras experiências encarnatórias e à chegada dos demais, oriundos de outras esferas materiais, mesmo que ainda primitivas, mas onde já haviam conquistado certo grau de evolução; grupos estes de espíritos dos quais fazemos parte. E permanece, ainda, à frente dessa grandiosa missão a Ele confiada pelo Criador.

..........Aliás, sobre esta origem distante de nossa evolução primária, Kardec perguntou aos Espíritos na questão 172 de “O Livro dos Espíritos”: “As nossas diversas existências corporais se verificam todas na Terra?” Ao que respondem os espíritos: “Não: vivemo-las em diferentes mundos. As que aqui passamos não são as primeiras, nem as últimas; são, porém, das mais materiais e das mais distantes da perfeição.”

..........Ora, tendo no Cristo o organizador e governador espiritual da Terra, passamos a ter melhor compreensão de muitas máximas deixadas por ele durante sua existência na Terra, como quando afirmou “que nenhuma de minhas ovelhas se perderá” (João 18:9) , referindo-se à sua responsabilidade perante essa humanidade que se circunscreve à Terra, formada por bilhões de espíritos encarnados e desencarnados, bem como na certeza de que um dia chegaremos à condição Dele, que se encontra muito acima de nossas conjecturas ainda tão materialistas.

..........Esse entendimento consolida a compreensão do espírita sobre a grandeza do Cristo e da necessidade de ter seu evangelho como base para nossa evolução, repelindo a interpretação, muito comum nos dias atuais, do Jesus vulgar e inserido na materialidade existencial de sua época.

..........Sobre isso, observa-se com freqüência a tentativa de fazer do Mestre Nazareno um ser semelhante à maioria de nós, envolvido pelos apelos da matéria, à qual ainda nos sujeitamos por força de nosso estágio evolutivo, ainda bem inferior. Transitamos pelas faixas do instinto em desequilíbrio com a mesma facilidade e rapidez que mudamos de opinião ou de valores em nossa vida social, profissional ou familiar, dependendo do estímulo a que somos submetidos.

..........A exemplo do que fizemos com Deus no passado, dando-Lhe feições e traços antropomorfos, similares ao do homem encarnado, queremos para Jesus as características psicológicas e comportamentais do homem moderno do século XXI ou do homem primitivo de sua época.

..........Para muitos, não é possível que Ele tenha ajudado a mulher adúltera sem se envolver com ela. Ou ainda, a passar pela vida sem uma relação afetiva e física com uma mulher e a constituir, portanto, uma família, tendo nos dias atuais herdeiros a reclamarem sua paternidade carnal. Para quem não compreende o espírito imortal, evoluído, puro, Cristo foi apenas alguém um pouco melhor que nós. Um homem mais responsável e questionador da ordem de sua época e não aquele que veio mostrar “ o caminho, a verdade e a vida (João 14:6”) , sem a necessidade de envolvimentos afetivos ou sexuais com a sociedade da época.

..........Para o Espírita, Cristo está muito além desse amor material, seja por quem for. Seu amor já superou em muito as conquistas afetivas da humanidade, ainda em seus primórdios evolutivos, distanciando-se da necessidade material e da proximidade carnal para se expressar. Jesus ama e consola a todos como o Pai O ensinou a amar seus filhos, e é esse amor, em estado angelical, que derramou por toda a humanidade e não por uma mulher ou apenas por alguns poucos. Tentar fazer dele um usuário dos apelos materiais da sociedade de sua época vem dando muito resultado aos cofres de muita gente e de muitas empresas, com obras literárias sem nenhum compromisso com a verdade, filmes e debates vazios que estão longe de alcançar o verdadeiro sentido de Sua vida, que foi posta a nosso serviço, como exemplo e referência para todo o sempre.

..........Portanto, para o Espiritismo, Jesus é referência evolutiva para toda a humanidade, como modelo e guia, como governador espiritual da Terra. Sendo assim, a Doutrina Espírita, definitivamente, é uma Doutrina Cristã, ao resgatar a pureza e a simplicidade de seu evangelho de amor e consolo, identificando seus ensinamentos como única fonte de vida e base para a construção de um futuro mais feliz para todos.

 

Rogério Muller
atual presidente da União Municipal Espírita de Petrópolis (UMEP)

 
 
 
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