Entrevista com Cezar Said
Site da UMEP: De acordo com uma das “Ponderações de Chico Xavier e Divaldo Franco” alguns dos dirigentes de Casas Espíritas podem ter alguma frustração profissional que tentam compensar estando à frente das casas espíritas. Tendo em vista que a dita frustração da sociedade vem aumentando em nosso país, com o desemprego e a desvalorização do profissional, com as ininterruptas trapalhadas políticas, com a americanização, o crescimento do capitalismo e do materialismo, você acredita serem tais fatores motivos para o crescente número de adeptos do Espiritismo? O fracasso, de alguma maneira, indica às pessoas o caminho da fé?
Cezar Said: Penso que sim, que as questões econômicas, o desencanto trazido pelas falácias dos sistemas capitalista e socialista, a ideologia veiculada pelas mídias, toda sorte de decepções causadas pelas pessoas e instituições que deveriam trabalhar para gerar igualdade e melhores condições de vida para todos... Tudo isso gera uma procura maior não só pelo Espiritismo, mas pelas religiões de um modo geral.
Site da UMEP: Visto que o centro do Centro Espírita é a pessoa, vemos a necessidade fundamental de humanizar as Casas, por seus trabalhadores, para melhor servir e aplicar a Doutrina. Qual a sua sugestão quanto às maneiras de execução deste propósito?
Cezar Said: Modelos de gestão menos verticalizados e mais horizontais, tal como os colegiados, podem ajudar neste processo. Mas fundamentalmente, precisamos de encontros onde as pessoas possam falar, interagir, trocar; rever a dinâmica das atividades existentes na casa espírita, lutando contra qualquer tentativa de alguém se entronizar como dirigente externo, promovendo o revezamento de companheiros nos cargos e encargos, estabelecendo práticas que ajudem a todos no desenvolvimento de suas potencialidades. Não é um caminho fácil, a mudança de uma cultura nem sempre se processa de forma rápida.
Site da UMEP: Para que o Dirigente da Casa Espírita seja eficaz ele deve, além de manter a contabilidade em dia, os projetos em andamento, os setores organizados, etc., trocar informações com outros Centros a fim de manter-se atualizado, aprendendo e ensinando, aberto às tendências e novidades. Até que ponto você acredita ser saudável para os Centros e para a Doutrina dos Espíritos este intercâmbio de trabalhos e métodos? Como identificar a disciplina, diferenciando-a do pensamento inflexível dos líderes das Casas?
Cezar Said: É extremamente saudável. Allan Kardec fazia isso nas suas viagens e, hoje, vemos alguns órgãos de unificação trabalhando com esta preocupação, de modo que a troca de experiências e olhares, êxitos e fracassos, promova o crescimento de todos.
Quanto à disciplina, é preciso que esta esteja a serviço da espontaneidade, de relações mais humanas, de maior integração entre todos, do contrário ela poderá engessar o sorriso, a alegria, isto quando ela se torna um fim em si mesma e não um meio para melhor organizar e facilitar o trabalho.
Site da UMEP: Em sua opinião, qual a melhor forma de adequar um irmão a uma função dentro do Centro Espírita sem burocratizar e resfriar as relações humanas? E no caso dele não se enquadrar em determinada função que já está exercendo, qual a melhor forma de abordá-lo e alertá-lo? Cezar Said: Será sempre sondar-lhe as intenções, conhecer sua vocação, sua disponibilidade de tempo, seu conhecimento doutrinário, isto só conseguimos quando realmente vemos na pessoa um irmão, um amigo e não um cliente ou assistido. Conhecendo-o, poderemos auxiliá-lo a se encaixar neste ou naquele setor, nesta ou naquela tarefa. Caso não se adapte numa tarefa, que utilizemos a sinceridade fraterna, abordando-o, ouvindo-o, intervindo e ao mesmo tempo dando a ele a liberdade que precisa para aprender e crescer. Que não se espere o fracasso dele para abordá-lo, pois o fracasso de qualquer companheiro é também nosso, da mesma forma que o êxito de alguém nos gratifica. Se trabalharmos de forma integrada e com transparência, teremos maior facilidade em abordar e sermos abordados, mas se delegamos e deixamos a pessoa pra lá, esfriam-se as relações e burocratiza-se a prática espírita.
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